Com medo de vírus, grávida usa manga comprida sob calor de 31ºC no Recife

Recife, 14h, 31ºC, umidade relativa do ar: 70%. Janelas fechadas, calça, camisa de manga comprida, meia e sapato. Sair de casa só para o trabalho, de carro, ou em caso de extrema necessidade. Grávida de seis meses, alérgica a repelentes, a administradora Bruna Alencar Uhlmann, 35, está vivendo assim.

Recife, 14h, 31ºC, umidade relativa do ar: 70%. Ana Lúcia Ferreira, 36, já passou por dois postos de saúde. De ônibus, com dor de cabeça e nas articulações, além de manchas vermelhas no corpo, a diarista está a caminho do Hospital Universitário Oswaldo Cruz. Está no quinto mês de gestação.

Uma mora em Boa Viagem, vizinhança à beira-mar na capital pernambucana. A outra vive em uma viela de Santo Amaro, um dos bairros mais violentos da cidade. Em comum, o medo por seus filhos.

Até esta segunda-feira (7), dos 646 casos suspeitos de microcefalia no Estado de Pernambuco, 119 estavam concentrados no Recife.

Segundo o Ministério da Saúde, a má-formação no cérebro é causada pelo vírus zika, transmitido pelo Aedes Aegypti, o mesmo mosquito da dengue e da chikungunya.

“Podemos ter uma geração com sequelas variadas”, diz Maria Angela Rocha, coordenadora do serviço de infectologia infantil do Oswaldo Cruz, para quem há uma geração inteira em risco. Até 90% dos casos têm relação com retardo mental.

“Pode ser como os casos de talidomida [medicamento que causou deformações em bebês em todo o mundo]. Mas com uma diferença, essa doença agora não preserva o sistema nervoso central”, afirma a médica.

CONTRASTE

Antes de entender que é alérgica aos repelentes de mosquito, Bruna chegou a se assustar com a vermelhidão no corpo -um dos sintomas da infecção pelo vírus zika. Quando parou de usar o produto, o efeito sumiu. Ficou aliviada, mas não tranquila.

“A única área exposta em mim é o rosto, mesmo assim passo hidrante com cheiro, para afastar mesmo”, diz.

No último fim de semana, ela tinha uma festa da empresa, em uma chácara, para ir. Deixou para lá. “Não vou me arriscar em um lugar que eu não conheço”, afirma.

Ana Lúcia também toma seus cuidados, mas não adiantou. “Meu filho e minha filha tiveram dengue. Fui no posto de saúde, me falaram que é zika. Agora preciso achar um hospital”, diz.

Na viela onde mora, há lixo pelo chão. No mesmo terreno, até quatro casas dividem o espaço. “Já passou aquele fumigador, mas faz tempo”, afirma.

A rua de Bruna é mais limpa, pavimentada, arborizada e sem poças de água.

Mesmo assim, basta que um dos moradores ali deixe de fazer sua parte -por exemplo, limpando vasos e impedindo o acúmulo de água parada- para que sua gravidez seja exposta a risco.

“Minha mãe já teve dengue. Hoje, se eu pudesse, iria para outra cidade, mas não posso. Tenho que trabalhar.”

Amiga de infância de Bruna, Helga Jinzenji Di Matteo, 35, também não pode fazer o que planejava.

Passou o último ano se preparando para engravidar. As duas cresceram juntas e, talvez, o mesmo pudesse se repetir com seus filhos. O surto de microcefalia, porém, mudou os planos. “Desisti, não é hora. Pelo menos não até ter uma definição disso tudo”, diz Helga.

Ana Lúcia também não consegue fazer o que quer. “Não posso perder tempo, moço, preciso ir para outro hospital”, diz à Folha.

O que é o vírus zika?

É um vírus da família dos flavivirus, a mesma da dengue e da febre amarela

Como é transmitido?

Nas cidades, principalmente por meio do Aedes aegypti, que também transmite a dengue e a chikungunya

Quais os sintomas?

Mais de 80% dos casos são assintomáticos, mas alguns dos sintomas que podem aparecer são febre e vermelhidão (veja infográfico), que geralmente desaparecem depois de 3 a 7 dias

O que é a microcefalia?

Má-formação cerebral que faz com que bebês nasçam com a circunferência da cabeça menor que 32 cm. Ela pode afetar o desenvolvimento e causar dificuldades cognitivas, motoras e de aprendizado, entre outras

O zika tem relação com os casos de microcefalia?

Sim, além de a alta de casos acontecer nos mesmos lugares e época, o vírus foi achado no tecido nervoso de um recém-nascido

Essa relação já era conhecida?

Não. A situação é inédita na pesquisa científica mundial. Após os casos no Brasil, a Polinésia Francesa passou a investigar a relação, uma vez que um surto de zika atingiu seu território em 2013

Como o vírus afeta o cérebro do bebê?

O zika tem uma tendência natural a atacar células nervosas. Uma vez que ele atinge o feto, se o cérebro ainda estiver em formação, há risco de as células não se desenvolverem nem migrarem, fazendo com que o órgão e a cabeça fiquem pequenos

Que características aparecem no exame?

Há uma diminuição dos giros cerebrais, deixando o cérebro com aspecto liso. Calcificações também podem surgir

Quantos casos foram notificados em 2015?

Segundo o Ministério da Saúde, já são 1.248 casos suspeitos no país, quase 10 vezes mais que em anos anteriores

Há exames para detectar o vírus?

São Paulo deve oferecer o teste no SUS em breve. Alguns laboratórios particulares estão lançando o teste

Planos de saúde cobrem exames e teste?

O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor diz que o plano não pode se negar. Se o cliente tiver dificuldades, pode reclamar à Agência Nacional de Saúde Suplementar

Como se proteger?

Elimine criadouros de mosquito e use calça e camisa de manga comprida, além de repelentes

Deve-se evitar gravidez neste momento?

O secretário de Saúde de SP diz que não, já alguns especialistas afirmam que sim. O Ministério da Saúde diz que a gravidez deve ser acompanhada desde cedo

Como saber se fui picado pelo Aedes?

É difícil saber. A picada do mosquito geralmente não coça nem provoca reações alérgicas. O período de maior risco é das 9h às 13h

Onde o mosquito pica, geralmente?

Especialmente na região dos braços e do abdome em adultos e da face em crianças. O mosquito voa geralmente a até 1,5 metro de altura

A infecção por zika pode ser letal?

Há registro de três mortes ligadas ao vírus no Brasil em 2015, sendo uma de um bebê com microcefalia. As outras são de uma jovem de 16 anos e de um homem com lúpus -uma doença autoimune

Se a mulher for infectada antes da gravidez, o bebê corre risco?

Se ela já estiver curada (geralmente de forma espontânea), o risco é baixíssimo

Posso ter zika uma segunda vez?

É pouco provável, pois o organismo já teria repertório para lidar com uma nova infecção

O Aedes pode transmitir mais de um tipo de vírus na mesma picada?

Em tese sim, mas isso ainda não foi observado. Por outro lado, já houve o relato de uma coinfecção em um paciente de zika com dengue

Há vacina contra o zika?

Não, e isso pode levar mais de uma década. O desenvolvimento seria mais fácil, porém, que o de uma vacina contra a dengue -já que há apenas um tipo de vírus zika, e quatro de dengue

Se estiver carregando um feto com microcefalia, a mulher pode abortar?

Por não estar previsto em lei, o aborto de fetos com microcefalia e que simultaneamente carreguem má-formações incompatíveis com a vida deve ser autorizado previamente pela Justiça

O vírus zika também pode causar outros sintomas mais graves?

Em adultos, é possível que o zika cause a síndrome de Guillain-Barré, doença neurológica rara e paralisante. Há relato de casos após o contato com o vírus, mas a relação ainda não foi comprovada

Fonte:http://www1.folha.uol.com.br/

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