E a família, como vai?

Mulher, homem e criança; casal homoafetivo com filhos; casal sem filhos; solteiro; neto criado pela avó e quem convive com madrasta, padrasto e irmãos ‘postiços’. É, pensando bem, a família tradicional não é padrão há muito tempo. Com as mulheres ganhando as ruas e espaço no mercado de trabalho, movimento que começou com força na década de 70, as configurações familiares mudaram. O sexo feminino empoderou-se, venceu (alguns) preconceitos e conseguiu ir atrás de suas realizações pessoais e profissionais. Nesta mesma corrente, o homem viu a necessidade e oportunidade de se fazer presente no lar. Isso sem contar as leis que garantiram direitos relacionados à união de casais do mesmo sexo.
Para Joyce Moysés, jornalista focada em comportamento, carreira e negócios, escritora e consultora de temas femininos, as pessoas estão conquistando maior liberdade de construir sua própria vida e sua família, de um jeito que combine mais com elas. Mas é preciso tomar cuidado e olhar para si mesmo para reconhecer o que é vontade própria e o que é imposição.
Não é porque, hoje, a mulher pode colocar a carreira em primeiro lugar, que ela tenha que desistir do sonho de ter filhos, pressão que continua forte no mercado de trabalho, ou adiar tanto que seu relógio biológico não permita mais. “A mudança vem de dentro pra fora e, tem que haver questionamento; se não a gente se desconecta do desejo interior, toma uma decisão que não é ‘nossa’ e, além de ser infeliz, ainda faz os outros infelizes”.
Autora de “Mulheres de Sucesso Querem Poder… Amar” e co-autora de “Mulheres modernas, dilemas modernos – e como os homens podem participar (de verdade)”, a profissional aborda em seu segundo livro, escrito com a ajuda de Claudio Henrique dos Santos, ex-executivo que largou a carreira para assumir o posto de dono de casa e apoiar esposa e filha, as novas relações sociais, discutindo caminhos para inspirar as mulheres de hoje e também os homens que fazem parte da vida delas. “Uma esposa que ganha mais que o marido ainda gera desconforto. Esse e outros temas são assuntos delicados e até um pouco subjetivos, porque dependem muito dos valores e da criação de cada um, mas é preciso falar sobre isso. É assim que nossa sociedade vai evoluindo, quando a gente coloca holofote, discute, tira de debaixo do tapete”, comenta.

As mudanças sociais

A vida torna-se cada vez mais dinâmica e até as cobranças sociais e os conceitos são revistos. “Estamos em uma fase de grande evolução e tem muita coisa bacana acontecendo. É obvio que existem alguns exageros, mas as mudanças sociais são assim: o pêndulo vai de um extremo ao outro, para quebrar paradigmas, e depois ele vai voltando para o centro. […] Não sou católica, mas vejo o papa Francisco como um líder de vanguarda, trazendo uma orientação mais moderna a respeito dos homossexuais e do papel da mulher, falando, inclusive, com pessoas de outras religiões. Mark Zuckerberg também pode ser usado como exemplo, já que, depois de ser pai, entendeu a importância de estar presente em casa e estendeu a licença-paternidade de seus funcionários. Como influenciador, ele provoca uma mudança, passa uma mensagem. Essa extensão também aconteceu aqui no País e ela é um marco importante, porque antes a mensagem social que era dada era de que o filho era uma responsabilidade só da mãe e o marido só ia distribuir charuto na maternidade. Isso é legal para mostrar que a família também recebe influências sociais positivas do meio, não só coisa negativa; e que, felizmente, o mundo muda”.

Liberdade feminina

Michele Barbosa, 29, jornalista e apresentadora na Centauro Comunicaciones, adora crianças e se dá muito bem com elas, tanto que vive recebendo, em sua casa, amigos e familiares com bebês. Apesar disso, ela nunca pensou em engravidar. “Amo os pequenos, muito mais que os adultos. Mas uma coisa é receber visitas, outra é ter um 24 horas por dia. Ao contrário das juras do casamento, criança só quero na saúde e na alegria. Não quero ninguém dependendo de mim, não tenho rotina, gosto de dormir, de fazer o que me der ‘na telha’, de sair e não estou disposta a largar a vida que tenho para realizar algo que não faz parte dos meus planos, só pelo fato de a sociedade ‘achar’ que tem que ser assim”. Casada há quase quatro anos, ela conta que o marido já sabia de sua escolha antes do “sim”. “Minha mãe cobrou muito, mas como viu que não tem jeito, parou de falar. Os pais dele não se manifestam sobre isso. Já tios, primos e agregados fazem cobranças a cada encontro. Dependendo da abordagem, sou grossa mesmo. Há pessoas que nem me conhecem direito e questionam. Criar o estereótipo de moça perfeita e dizer que Amélia que era mulher de verdade é um erro. Sim, existem mulheres que sonham com tudo isso, eu as respeito e só peço o mesmo”.

Família pop rock

Marco Piangers, jornalista da Rede RBS, afiliada da Globo, e repórter do programa Encontro com Fátima Bernardes, já relatava a vivência com suas duas filhas, Anita e Aurora, no jornal Zero Hora desde 2003, quando decidiu compilar todas aquelas histórias em um livro: “O papai é pop”, que saiu em 2015, pela Belas-Letras, e, logo, virou best-seller. “Acho que esse pai que estava louco pra participar mais ou já estava participando se vê espelhado, representado ali. Agora lançamos ‘O papai é pop 2’, que continua essa mesma jornada”. O profissional, que cresceu sem a presença paterna, afirma que sua participação ativa não é só mérito próprio e tem muito a ver com o esforço que vê sua mãe, esposa e filhas fazerem todos os dias para que ele seja presente. “Pai não ajuda, divide. O casamento já é um acordo entre partes que prevê uma dedicação dos dois. Eles estão nessa para dividir tarefas e se ajudar. O homem deve participar assim como a mulher; se possível, até mais, já que ela tem seu corpo modificado e uma série de cobranças sociais que o sexo masculino não tem. E, pasmem, muitos vão descobrir um enorme prazer nisso”.
Do outro lado dessa história, está Ana Cardoso, esposa de Marco, jornalista, socióloga, feminista, mãe das meninas e autora de “A mamãe é rock”. “Meu marido sugeriu ao editor que sua segunda edição também tivesse textos meus. Gostei da ideia, esbocei uma dezena de crônicas e enviei a ele. No dia seguinte, fiquei sabendo que, na verdade, teria meu próprio livro”. Na publicação, voltada para mães reais, que vão muito além daqueles seres amorosos que nunca gritam, que fazem bolinhos sem glúten e arrumam os brinquedos, Ana fala da parte “in/tensa” de tudo isso. “Considero uma baita injustiça as mulheres não poderem ser verdadeiras com os seus sentimentos e dificuldades. Tinha certo receio da obra ser mal recebida. No entanto, percebo que existe, sim, espaço para falar da maternidade sincera. Nem todo mundo concorda comigo, age como eu, mas tenho recebido mensagens lindas de leitoras dizendo que vão tentar relaxar, se cobrar menos e se divertir mais nessa aventura radical e rock’n’roll”.

Fonte:http://www.clickguarulhos.com.br/

Share This: