Em país que valoriza a velhice, idosos vivem com mais saúde. | Guaruevoce

Em país que valoriza a velhice, idosos vivem com mais saúde.

Pesquisas apontam menor depressão e risco de demência, além de recuperação física mais rápida.

E ela os atormenta para apresentá-la a seus filhos, muitos deles adolescentes.
Esses adolescentes a levam a festas e filmes, às vezes esquecendo da idade
que ela tem.
“Faço minha vida ser bonita. Ainda sou saudável porque tenho minhas
atividades e conheço gente”, diz Claude.
Ela está certa. Um número crescente de pesquisas e dados globais coletados e
analisados pela Orb Mediamostram forte conexão entre a forma como vemos
a velhice e a nossa qualidade de vida.
Pessoas com visões positivas da velhice tendem a viver mais e com melhor
saúde mental e física do que aquelas com visões negativas.
Os mais velhos em países com baixos níveis de respeito pelos idosos também
tendem a apresentar níveis mais altos de pobreza.
Como a taxa de envelhecimento da população está subindo rapidamente em
muitos países, uma mudança de atitude poderia trazer benefícios.
Se as tendências populacionais continuarem, em 2050 uma em cada cinco
pessoas no mundo terá mais de 65 anos, e quase meio bilhão terá mais de 80
anos.
Surpreendentemente, em um mundo repleto de pessoas mais velhas, as
visões negativas da velhice são comuns.
Uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde descobriu que 60% das
pessoas em 57 países tinham opiniões negativas sobre a velhice.
As pessoas mais velhas são frequentemente vistas como menos competentes
e menos capazes do que as mais jovens e consideradas um fardo para a
sociedade e as famílias, em vez de valorizadas por sua sabedoria e
experiência.
A Orb Media compilou dados de 150 mil pessoas em 101 países para aprender
sobre seus níveis de respeito pelos idosos. O Paquistão ficou entre os países
que obtiveram as maiores pontuações.
O respeito pelos idosos é uma tradição de longa data no Paquistão, diz Faiza
Mushtaq, professora de sociologia no Instituto de Administração de
Empresas em Karachi.
Mas, à medida que mais gente se muda para as cidades, estruturas familiares
tradicionais tem se rompido. Sem uma rede de apoio do governo, muitos
caem na pobreza extrema, diz a professora.
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No entanto, ela afirma que há benefícios tangíveis para o respeito à velhice.
“É uma maneira muito mais saudável de assumir o processo de
envelhecimento, em vez de ter todas as suas noções de bem-estar, beleza e
valor próprio ligados à juventude”, diz Faiza.
Com a expectativa de vida mais longa do mundo e baixas taxas de natalidade,
o Japão está à frente dessa mudança demográfica global.
A Orb encontrou baixos níveis de respeito pelos idosos no país. Kozo Ishitobi,
um médico de 82 anos que trabalha em um lar de idosos, diz que os idosos
eram tradicionalmente vistos como um fardo.
“Os japoneses estão começando a perceber que idosos precisam de apoio.
Todos nós passamos por isso, então devemos apoiar uns aos outros.”
A atitude de uma pessoa em relação ao envelhecimento tem implicações
amplas. Becca Levy, professora de epidemiologia na Faculdade de Saúde
Pública da Universidade Yale (EUA), é fascinada pelo poder dos estereótipos
sobre idade há décadas.
Ela começou seu trabalho nos anos 90 com um palpite: se os idosos são
respeitados na sociedade, talvez isso melhore sua autoimagem. “Isso pode,
por sua vez, influenciar sua fisiologia e influenciar sua saúde”, diz Becca.
Nas últimas duas décadas e meia, a professo
13/06/2018 Em país que valoriza a velhice, idosos vivem com mais saúde – 13/06/2018 – Equilíbrio e Saúde – Folha
https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2018/06/em-pais-que-valoriza-a-velhice-idosos-vivem-com-mais-saude.shtml 3/4
Parece simples demais: como uma atitude melhor em relação à velhice ajuda
alguém a viver mais? Becca descobriu que pessoas com estereótipos
negativos sobre idade têm níveis mais altos de estresse, que prejudica a
saúde. Aqueles que esperam uma vida melhor na velhice também são mais
propensos a se exercitar, comer bem e ir ao médico, diz Becca.
Esse é o caso de Marta Nazaré Balbine Prates, de 57 anos, cuja família se
mudou para a casa dos avós em São Paulo, no Brasil, há uma década.
Ela deixou seu trabalho como nutricionista em um hospital para cuidar dos
pais (seu pai morreu no início do ano). Foi difícil financeiramente e
emocionalmente, mas ela diz que a experiência a fez pensar sobre o tipo de
vida que quer para sua velhice. “Procuro cuidar da alimentação, faço
atividade física na medida do possível. Quero chegar à velhice em boa
condição física.”
Deveríamos estar gratos por nos preocuparmos em envelhecer, diz Marília
Viana Berzins. Ela trabalha com idosos no Brasil há 20 anos e fundou a
organização não governamental Observatório da Longevidade e
Envelhecimento Humano. “A velhice é a maior conquista da humanidade no
século passado”, diz ela.
Segundo Marília, “quando a velhice for vista apenas como uma fase da vida,
vamos melhorar, e os idosos serão tratados com mais respeito”.
Mudar os estereótipos não é simples. As pessoas criam suas concepções sobre
o envelhecimento quando são crianças, diz Corinna Loeckenhoff, professora
de gerontologia da Faculdade de Medicina Weill Cornell (EUA), que estuda
estereótipos entre culturas.
Infelizmente, as crenças negativas são frequentemente construídas a partir de
impressões inexatas.
À medida que as pessoas envelhecem, sua saúde geralmente permanece
estável até cerca de cinco anos antes de morrerem, diz Corinna. Só então a
maioria das pessoas sofrerá o declínio mental e físico mais associado à
velhice.
“As pessoas continuam confundindo envelhecimento com morte”, diz
Corinna.
Alguns pesquisadores dizem que o aumento do contato significativo entre
jovens e idosos pode derrubar estereótipos negativos.
Nos últimos cinco anos, a Résidence des Orchidées, uma casa de repouso na
França, vem tentando fazer isso. Toda semana crianças de uma creche
vizinha visitam os moradores. Pierre Vieren, um empresário aposentado de
92 anos, adora ver as crianças.

“Todos acenam para mim para dizer oi. Isso é meu raio de sol pela manhã.”
A diretora da casa de repouso, Dorothee Poignant, diz que a experiência
normaliza a velhice para as crianças. “Recria um espírito de família com
alegria, crianças rindo, mais velhos rindo”, diz ela. “Não temos apenas idosos:
temos crianças, idosos, deficientes. É inclusivo.”
Todo mundo pode sair ganhando com ideias mais positivas sobre a velhice,
afirma Corinna. “Você será a vítima ou beneficiário do seu próprio
estereótipo à medida que envelhece.”
MAIS VELHOS SÃO OS MAIS PREPARADOS, DIZEM BRASILEIROS
Em comparação com os mais novos, são os mais velhos os mais responsáveis,
honestos, éticos e dedicados, mostra pesquisa Datafolha que detalhou
valores e comportamentos de diferentes faixas etárias.
A cada 4 pessoas, 3 consideram que são os mais velhos que possuem mais
essas qualidades. Para 56% dos brasileiros, os mais velhos são também os
mais preparados para o trabalho.
Apesar da visão positiva, 90% disseram acreditar que há preconceito contra
os idosos no país.
A pesquisa mostrou ainda que 56% dos com 60 anos ou mais estão satisfeitos
com seu estado de saúde.

Foto: O empresário aposentado Pierre Vieren, 92, brinca com crianças na casa de repouso
em que vive, em Tourcoing (França) – Lucian Perkins/Orb Media.

Fonte: www.folha.uol.com.br

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