Esse emprego dá dinheiro?

Ao olhar um inocente bebê, pretensões das mais diversas. Será que ele vai seguir a carreira da família? Todos esperam que ele leve o título de “doutor”, afinal, trata-se de uma tradicional família de advogados. Todos os esforços e ensinamentos serão para que aquela frágil criança perpetue a linhagem da família, mesmo que ela ainda não saiba.
O sonho de ser cientista, astronauta ou jogador de futebol nos acompanha em toda nossa infância. Chegamos até a nos divertir, imaginando estar exercendo essas tão cobiçadas profissões. Quando a adolescência chega, o sonho muda; as aspirações vêm das grandes histórias, das experiências, daquilo para o que achamos ter habilidade. As cobranças, antes não perceptíveis para quem as sofre, agora iniciam o ciclo.

A pergunta “já escolheu a faculdade?” nos persegue até o momento em que decidimos o que queremos, mesmo que a resposta não agrade a muita gente. “Mas isso não dá dinheiro”, talvez seja a próxima frase que muitos escutem após revelar os sonhos. Sem perceber, os caminhos estão sendo direcionados por outros.
Entre todas essas cobranças, percebe-se logo cedo a responsabilidade que a sociedade impõe com relação à vida profissional. Para famílias mais tradicionais, trabalhar com carteira assinada é requisito mínimo para se obter o sucesso. Ser artista? Não dá, assusta (leia-se não dá dinheiro).

“O que deveria fazer a pessoa escolher uma carreira seria a vocação, mas nem sempre isso acontece. Dependendo da força da influência que a família exerce sobre o indivíduo, muitas vezes realmente ele é levado a seguir a mesma carreira que os pais. Também pode acontecer de a família dissuadir a pessoa a não ir por determinado caminho, devido àquela carreira não ser bem remunerada, ou não ser reconhecida, como os professores, ou ser muito difícil de se alcançar sucesso, como os músicos. Acontecem muitos casos de jovens ‘forçados’ a cursar algo que não era o que realmente queriam, e por isso acabam abandonando o curso ou nunca exercendo a profissão”, explica a gerente de recursos humanos Ana Lúcia Guedes.
Quando escolhida a ocupação, as cobranças mantêm-se em ritmo intenso e assim seguem pelo resto da vida; afinal, somente uma faculdade é o suficiente? Quando vai começar a pós? O mestrado? E o doutorado? O jornalista, por exemplo, também tem seus carmas: “Você vai trabalhar na Globo?”. É um boom de cobranças intermináveis.

Freud explica

A psicanálise entende que as pessoas aprenderam a acreditar que ou você se enquadra no desejo coletivo ou você é falho. “A própria família já começa a nomear o bebê para ocupar determinados lugares, mesmo não tendo adquirido formação neurológica para tal: ‘Ah! Que lindo! Esse será um excelente executivo.’ As escolas exigem cada vez mais dos pequenos, pensando num ‘futuro ideal’ – que, aliás, não existe. As pessoas não respeitam a subjetividade das escolhas de cada indivíduo. Pense no filho do vizinho: ele está numa grande empresa, fez intercâmbio e fala outros idiomas fluentemente. E o seu? Está em casa, fazendo desenhos. Pois saiba que possivelmente, o filho perfeito pode ter passado por um processo de conflitos para se encaixar nesse ideal. Ele viveu para realizar desejos alheios. O senso comum entende que é normal, mas não. É angustiante”, pontua a psicanalista Cleise C. Porto Machado.

Na contramão do senso comum

O administrador guarulhense Douglas Brito da Silva, 32 anos, é um exemplo que vira e mexe encontramos no dia a dia: seu pai queria que ele fosse engenheiro, curso que seguiu até o oitavo semestre, quando decidiu largar a área e seguir a sonhada administração, na qual é formado hoje. “Meu pai idealizou em mim um sonho que ele queria para ele. Toda a expectativa dele, da família, ficou em mim. Nunca tive o sonho de ser engenheiro, mas como eu tinha boas notas em exatas, aproveitei a oportunidade e segui. Quando decidi deixar engenharia, ouvi muitos dizerem que seria a pior escolha que já fiz, mas foi diferente”, conta.
Já o artista plástico Elvis Mourão, de 32 anos, é um exemplo incomum de quem resolveu apostar em um sonho fora da caixinha. Guarulhense, há cinco anos trabalhava em um emprego formal: uma agência de publicidade. Para os olhos da família ou até mesmo amigos, era um jovem de 27 anos com um futuro promissor. Mas o artista conta que sua vida parada foi o pontapé para ele ir contra o tradicionalismo da família. Mourão ‘engavetou’ a carteira de trabalho e tomou uma atitude que colocaria em xeque toda a sua carreira. “Há cinco anos eu trabalhava em emprego formal. Não estava progredindo. Desde pequeno, eu desenhava e todas as pessoas gostavam. Foi aí que decidi sair do emprego e apostar na minha arte. Para a minha família foi um grande choque quando falei: eles tinham medo de não dar certo. Já a maioria dos meus amigos não acreditava. Foram poucas pessoas que apoiaram”, relata.

O guarulhense, que hoje tem até uma linha de óculos de sol criados em parceria com a Ray-Ban, vive, com muito orgulho, de sua arte. Mas ainda assim as frases mais típicas não o deixaram. “As que mais escuto são: você vive de arte? E isso é trabalho?, finaliza.

Aposentei, mas estou no pique

A expectativa de vida aumentou. Segundo dados de 2013 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a perspectiva é de 74 anos e 9 meses. Passou a época em que o idoso ficava à espera da doença e da morte. Casos de pessoas que ‘vão à luta’ depois dos 65 anos são comuns. Pelo contrário: segundo o Ministério da Educação (MEC), houve um aumento de 40% no número de idosos que ingressaram na faculdade nos últimos dois anos. No Brasil, temos, aproximadamente, 15 milhões de idosos; desses, 4,5 milhões trabalham. Em sua grande maioria, os que continuam na labuta do dia a dia já estão aposentados. É mole?

“Temos que levar em consideração que atualmente as pessoas de 60 anos ou mais são ativas, dinâmicas, cheias de disposição. Tenho visto iniciativas de empresas que estão buscando pessoas aposentadas, com idade a partir de 60 anos, para preencher vagas em seus quadros de funcionários, mas, infelizmente, ainda são poucas. Outras empresas também estão procurando mesclar pessoas mais “seniores”, com bastante bagagem tanto profissional quanto de vida, para atuar em conjunto com outras mais jovens em seus quadros de funcionários. Muitos jovens são extremamente talentosos, mas existem situações em que apenas a experiência e a vivência podem trazer as respostas que estão sendo buscadas”, explica Ana Lúcia Guedes.

Seja por disposição para o trabalho, o vício com a rotina ou pela necessidade de aumentar a renda, os idosos estão aí para arregaçar as mangas. Suas contribuições para a sociedade são de extrema importância. Portanto, se encontrar um desses “velhinhos guerreiros” na rua, pense muito bem antes de dizer que ele precisa descansar.

Dica de filme para entreter e refletir

A safra mais jovem para determinadas vagas tem certas dificuldades que somente a experiência de vida pode ajudar a resolver. Um bom exemplo e incentivo para combater o preconceito é assistir ao filme “Um Senhor Estagiário” que mostra como um idoso pode ajudar uma startup. Nele, temos uma aula de vida, sobretudo de comportamento baseado nos velhos moldes, além de poder conferir diversos exemplos sobre o que a pressão social pode causar.

Fonte:http://www.clickguarulhos.com.br/

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