Investigado pela PF, xeque muçulmano nada tem a ver com terrorismo

Recebi informação do amigo e professor Sérgio Scatolin de que conhecia o árabe Ahmad Al-Khatib, que foi conduzido pela PF para prestar depoimento, na semana passada, sobre suposto envolvimento com o Estado Islâmico. E que o mesmo desenvolve um trabalho social de acolhimento a refugiados da guerra da Síria e nada tem a ver com terrorismo. Forneceu-me o contato e busquei referências com outras pessoas e marquei uma visita à empresa do personagem, na região da vila Rio de Janeiro.

Fui sozinho, desarmado, sem proteção policial. Fui recebido de portas abertas, em um ambiente acolhedor, anexo de um galpão industrial. Já a julgar pelo semblante, impossível imaginar que aquele senhor pudesse ser cogitado como terrorista em potencial.

Khatib está no Brasil há 27 anos e há muito tempo radicado em Guarulhos, onde tem muitos familiares. Atua profissionalmente na fabricação de camas-box. E é xeque (ou sheik, como preferem alguns) muçulmano. Em 2013, fundou a Associação Livro Aberto – Núcleo Islâmico, no Jardim Santa Mena.

Ele conta que o objetivo inicial da ONG era educativo. Pensava-se em obter patrocínio de apoiadores para que crianças de comunidades carentes pudessem estudar em escolas particulares, tendo em vista a baixa qualidade do ensino em escolas públicas.

Porém, com a guerra na Síria e o grande número de refugiados que passaram a vir para o Brasil, concluiu-se que era muito mais emergencial providenciar acolhida a essas famílias. “Atendemos cerca de 470 famílias, não só de sírios, mas também de africanos. Pessoas que chegam sem nenhuma condição de sobrevivência. Procuramos acomodá-los, orientar, encaminhar para empregos”, conta Ahmad.

Pergunto do quê sobrevive a Associação. “Da colaboração de comerciantes, amigos, pessoas que querem ajudar”, responde.

Então, se é alguém que apenas faz um trabalho social, por que teria sido incluído na Operação Hashtag, que visou desmontar um suposto aparelho terrorista no Brasil? Ahmad Al-Khatib explica que o que levou a Polícia Federal a vinculá-lo ao suposto grupo foram mensagens trocadas nas redes sociais com dois ex-funcionários seus; Antonio Andrade, conhecido como Paraíba, trabalhou na ONG e vive em João Pessoa (PB); Vitor Barbosa Magalhães, de 23 anos, conhecido nas redes sociais como Vitor Abdullah, trabalhou na fábrica por pouco tempo e foi preso, devido ao conteúdo de postagens na internet, que, na ótica dos investigadores, davam a entender que ele seria simpatizante do Estado Islâmico e que poderia fazer parte de uma organização que talvez cogitasse fazer algum ato terrorista nas Olimpíadas do Rio de Janeiro.

Antonio interessou-se pelo Islamismo e escrevia mensagens a Ahmad, fazendo perguntas para entender melhor a respeito. E o xeque respondia, explicando e fazendo comparações. Contou-me que Paraíba, há um ano e meio, quis saber sobre uma espécie de batismo que os praticantes recebem. Ele comparou com a comunhão da Igreja Católica: “A pessoa que recebe a hóstia o faz para demonstrar sua fidelidade à religião. Eu expliquei a ele que, da mesma forma, ao receber esse sacramento o praticante do Islã está jurando fidelidade ao Islamismo. Mas isso nada tem a ver com Estado Islâmico, não apoio ataques do Estado Islâmico, nem nenhum tipo de ataque”.

Quanto a Vitor, é um rapaz que interessou-se em aprender árabe e nos contatos com Ahmad queria saber mais sobre a língua. E, para aprofundar o conhecimento, adotou o Abdullah no nome no Facebook, fazendo amizade virtual com muitas pessoas. “É gente que trabalha para sobreviver. Não tem dinheiro para nada. Quanto mais para comprar arma… Nada disso”, comenta.

Ahmad Al-Khatib afirma que mais de 15 milhões de sírios deixaram seu país, que agora estaria com meros 10 milhões de habitantes. “Essas pessoas são menos importantes do que os franceses ou do que os americanos? Bachar el-Assad pode fazer o que quiser e os países lhe dão apoio. É justo bombardear a Síria e destruir cidades inteiras, matando as pessoas que moram ali? Um bombardeio desses não é terrorismo? Eu não apoio as atitudes do Estado Islâmico, mas eles mataram menos gente do que esses bombardeios têm matado na Síria”.

Pergunto sobre a ação da Polícia Federal, que ele classificou de “exagerada” em entrevista ao programa “Fantástico”, da rede Globo, no domingo. Ele comenta: “A opressão financeira cria o ladrão. A opressão social cria o louco, o deprimido. A opressão ideológica cria o terrorista”. “O que quis dizer com isso”, indago. Khatib explica: “Se percebo que alguém está indo para o caminho errado, eu preciso acolher, ensinar o que é certo. Eu disse isso ao delegado que foi em minha casa. Ele conversou comigo, me tratou muito bem. Não fui levado à força para depor. Fui para o Aeroporto de Guarulhos em meu próprio carro. Se, em vez de acolher, a gente acusa, despreza, trata com preconceito, estamos empurrando a pessoa para o caminho errado”.

Mas, enfim, Ahmad Al Khatib acredita que um ataque terrorista possa ser possível nas Olimpíadas  do Rio de Janeiro? “Não, não creio. Assisto muito os canais árabes, o Brasil nunca é mencionado como possível alvo de um ataque”

O fato de estar sendo investigado pela Polícia Federal nada muda no ânimo do sheik: “A ONG já era conhecida. Já fizemos eventos no Bosque Maia, já tinha passado na Globo mais de uma vez. Mas agora ficou mais famosa, mais gente pode apoiar o trabalho social, porque sempre há refugiados precisando de apoio, de emprego. Gente boa que deixou a terra natal em busca de paz, gente que quer trabalhar, sustentar os filhos”.

Fonte:http://www.clickguarulhos.com.br/

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