Marieta Severo vem incendiar o Adamastor

Depois de três anos atuando em grandes capitais do Brasil, Marieta Severo, conhecida pelo notável papel de “Dona Nenê”, em “A Grande Família”, estará pela primeira vez em Guarulhos, nos dias 14 e 15 de maio, para encenar “Incêndios”, no teatro Adamastor. A premiada peça, escrita pelo libanês Wajdi Mouawad e dirigida por Aderbal Freire Filho, se passa em meados dos anos 70 e 80, no Líbano, e retrata a guerra civil entre cristãos e muçulmanos.

Em um bate-papo exclusivo para a Revista Weekend, a atriz, além de falar de “Incêndios”, abordou assuntos polêmicos e comentou a prestigiada carreira de 50 anos.

Como atriz e coprodutora, onde buscou inspiração para a peça ‘Incêndios’?
Ela já é uma peça que inspira muito quem a faz. Tem uma história belíssima, contundente, trágica, forte. Narrativa muito contemporânea e ágil. É uma peça que envolve completamente o espectador. Sempre escolhi o que fiz em cena com muito critério e responsabilidade teatral, e “Incêndios” me traz a felicidade de reafirmar o meu caminho de uma maneira muito poderosa.

Como foi o processo de incorporação da personagem Nawal?
Os processos são todos mais ou menos parecidos. Quando você tem um texto com a dimensão de “Incêndios”, existe uma responsabilidade maior de mergulhar fundo nesse processo. A gente tinha um material ali muito forte, muito interessante. Ficamos quatro meses ensaiando. Nos aproximamos desse texto com muito respeito e cuidado, porque se passa no Oriente Médio, com uma realidade cultural, política e social muito diferente da nossa. Tivemos, no primeiro mês, muitas oficinas e aulas que abordavam vários aspectos do tema.

O que o público sente ao assistir ao espetáculo?
No final do espetáculo, fazemos debates com o público. Sabemos que a peça tem uma comunicação avassaladora com o público; as pessoas se emocionam muito.

Por que trazer a peça para Guarulhos?
Já levamos o espetáculo para várias cidades, mas somente em grandes capitais. Então, escolhemos outras cidades paulistas, porque sabemos que existe um povo muito ávido pelo teatro, ainda mais com a qualidade teatral de “Incêndios”. Os debates que tivemos com o público mostram a alegria e a satisfação em ver a peça. O retorno para nós é muito emocionante.

A peça trata de tramas delicados do Oriente, algumas já vividas ou vistas por você na Ditadura. Isso ajudou na interpretação e conexão com o papel?
Sempre queremos falar do nosso terreno para as pessoas que estão ali. O que me interessa mais em “Incêndios” não é só a grande capacidade que a peça tem de tocar em dramas e esclarecer questões do ser humano, mas também a ligação muito real com o que a gente viveu e vive. A Nawal se desenvolve na guerra civil do país dela, e o interessante é que a peça não toma partido. Ninguém tem razão em uma guerra civil. Então, em tempos de tanta intolerância política, essas questões estão mais contundentes. Falamos com mais força, com mais vontade, pois vivemos tempos intolerantes, onde ninguém pode discordar de ninguém. A personagem foi presa e torturada, pois se envolve na guerra civil. Quando ela vai ao tribunal reconhecer o torturador dela, ela fala: “Através de mim são fantasmas que lhe falam”. E também acho isso, pois conheci mulheres e pessoas que sentiram o que a Ditadura brasileira fez. Então, é bom tocar nesse assunto, ainda mais quando vemos que alguns setores clamam por essa Ditadura.

Quando você vê figuras influentes, como Jair Bolsonaro, discursar sobre ideias como a Ditadura, o que você pensa?
As ideias dele são completamente opostas às minhas: a maioridade penal, o direito das mulheres, das minorias, LGBT e o desarmamento (…). Acho triste e preocupante que conquistas de todos esses anos corram perigo por causa de pensamentos e atuações como as dele. Não posso nunca concordar com uma pessoa que aprecie um fato político e histórico como a tortura.

Você é uma atriz de múltiplas facetas. Entre a comédia, o romance, o drama e outros gêneros, qual apresenta mais dificuldade?
Acho sempre difícil essa mágica de fazer as pessoas acreditarem naquele personagem. Seja na comédia ou drama, tudo é muito difícil. Sempre que leio um texto, penso: “Meu Deus, será que vou conseguir fazer isso direito? Como vou fazer isso?” Quero sempre que ele me traga grandes questões, que me deixe insegura. Não gosto de pensar que já sei fazer uma coisa. Muito pelo contrário.

Depois de 14 anos, como foi ficar sem os pastéis do Beiçola (referência ao término de “A Grande Família”) e, claro, a emblemática jarra de abacaxi?
Sinto muita falta de tudo, mas acho que cumprimos uma trajetória belíssima, bacana. Ali tinha uma briga por qualidade o tempo inteiro. É claro, perdemos um pouco da convivência, não vejo mais tanto os meus amigos da “Grande Família”, mas eles estão no meu coração para sempre.

São tantos papéis e, de alguma maneira, deve ser possível tirar algum aprendizado de cada um deles. De que forma suas personagens influenciam na sua vida?
O pouco que sei de várias coisas na vida foi através dos meus personagens. Por exemplo, estava fazendo o papel da mulher de Mozart; então, naquele momento, fui conhecer mais, ouvir mais, me aprofundar mais.

A TV proporciona bastante visibilidade, mas é o mais prazeroso? Aprende-se mais na televisão, no teatro ou cinema?
O prazer pra mim é saber da qualidade do trabalho, da comunicação e da maneira com que ele chega até as pessoas. Sempre gosto de aprender, mas uma coisa que é muito preciosa no teatro, e que foi incorporado tanto na televisão quanto no cinema, foi o tempo de ensaio e preparação. Antigamente, conversávamos uma ou duas vezes, líamos o texto e depois cada um fazia o seu trabalho. Agora, existem até os chamados preparadores. Sendo assim, esse tempo precioso do teatro, que dava a possibilidade dos atores mergulharem no trabalho, está incorporada nos outros meios também.

Sendo uma atriz com 69 anos, você conseguiu realizar o sonho de mudar o mundo com o teatro?
Ah, não! Mas essa ilusão foi muito importante para a minha formação. Fui criada numa época em que achávamos que o teatro iria mudar a sociedade. Era uma geração idealista, cheia de sonhos, de utopia; gosto muito de ter sido formada assim. Agora não tenho mais essa ilusão, mas ao mesmo tempo preciso um pouco dela para estar em cena.

Tem algum papel que você ainda não interpretou e queira fazer?
Nunca tive muito isso. Vou escolhendo e fazendo, conforme meu desejo naquele momento.

Você atuou como Dona Nenê durante 14 anos e, após o término, fez o papel da Fanny, em “Verdades Secretas”. São mulheres opostas. Diante dessas visões, como interpreta o feminismo hoje?
É muito bom essa bandeira estar revigorada, porque, às vezes, as pessoas tinham uma visão muito injusta com o movimento feminista, um pouco jocosa até, como se todas as questões das mulheres estivessem resolvidas. Hoje, o pessoal mais jovem está levando todas essas questões de uma forma interessante, muito bem-humorada, o que é ótimo. Aplaudo, porque essas questões não foram resolvidas. Ainda não dá pra jogar essa bandeira fora.

Como você interpreta os últimos acontecimentos na política, como o impeachment e a crise? Como espera ver o Brasil daqui a cinco anos?
Estamos numa crise, mas a maneira de resolvê-la deveria ser a democrática, com respeito ao voto. Sou muito positiva e otimista, mas de onde vejo o Brasil agora, não o vejo de forma animada. Tenho medo do retrocesso no campo do comportamento e conquistas sociais, por exemplo.

Não demora muito para um acontecimento virar piada nas redes sociais. Como vê esse humor na política e na vida das pessoas?
O humor tem uma capacidade de mostrar o lado de uma questão que não conseguimos. É uma faca afiada. Sou sempre a favor. Agora, o humor preconceituoso, de mau gosto, eu, particularmente, não acho graça. Mas que cada um exerça o seu.

Agora, para rirmos e para a mulherada tirar essa dúvida mortal… Como foi agarrar o Gianechini no papel de Fanny?
Discordo do enfoque “agarrar”, porque é estranho, nos coloca num lugar que não é verdadeiro. Se dou um tapa no Gianechini ou um beijo, para mim é uma interpretação. Tenho, inclusive, colegas que brincam com isso, mas é aquela: fez a cena, acabou. Somos amigos. Ninguém está ali para tirar uma casquinha de fulano.

Você se sente realizada?
Sou feliz com o que conquistei com o meu trabalho. Mas essa sensação de insegurança, de que não vou conseguir fazer bem, sempre vai voltar no meu próximo trabalho. Mas, quando ando pelo Brasil, como tenho andado agora, me alimento com a forma que as pessoas me recebem, olham e falam, gosto dessa forma. É lógico que tenho muito para batalhar. Mas é difícil uma atriz que tem 50 anos de carreira olhar para trás e falar: Não fiz nada. Pelo contrário: trabalhei muito, então fico feliz.

Muitos pensam que ser atriz é uma coisa fácil. O que você diz para essas pessoas?
Vem pra cá pra ver se é mole! (risos).

 

Fonte:http://www.clickguarulhos.com.br/

Teatro Adamastor
Avenida Monteiro Lobato, 734 – Centro
Sábado, às 17h30 e 21h, e domingo, às 17h
Ingressos: www.compreingressos.com
R$ 25 (inteira) e R$ 12,50 (meia)
Informações: 2093-3176

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